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 Dia da Consciência Negra: Análises e Reflexões de uma Assistente Social


  20/11/2020



 

Em homenagem ao Dia da Consciência Negra, celebrado hoje (20) no Brasil, o Conselho Regional de Serviço Social do Amazonas (CRESS 15ª Região/AM) entrevistou a professora do curso de Serviço Social da Ufam, Heloísa Helena Corrêa da Silva, que tem em sua formação mestrado, doutorado e pós-doutorado em Serviço Social pela PUC-SP, além de experiência em gestão e planejamento. Mulher negra e com um vasta e enriquecedor currículo como assistente social nos setores público e privado, a docente é líder do grupo Questão Social e Serviço Social no Estado do Amazonas do Diretório de Grupos do CNPq.

 

Na conversa com o CRESS/AM, Heloísa Helena debate as consequências para a população negra do racismo estrutural, um tema que voltou a ganhar notoriedade no mundo em 2020 e no País após os movimentos antirracistas nos EUA, como “Vidas Negras Importam”. A formação da estrutura da sociedade no Brasil desde o período colonial explica as origens do preconceito e das desigualdades sociais vividas pela maioria dos/as negros/as até hoje.

 

“No seu nascedouro, a sociedade no Brasil era formada por três raças: o africano, que veio para o País escravizado, o indígena, que era a dominante, e o branco ibérico, no caso os colonizadores portugueses. Mais para frente, as relações externas que o Brasil mantinha requisitavam, conforme a História, o embranquecimento da população para substituir a mão de obra escrava. Foi quando surgiu os movimentos migratórios para o País, como de alemães e italianos, e depois mais uma leva de imigrantes no início do século XX”, disse Heloísa.

 

Mas o fim da escravidão no Brasil não evitou uma escalada da miséria e da exclusão da população negra, como lembra a professora. “O fato é que essa população (negra) anteriormente escrava, que serviu também estruturalmente para que o Brasil fosse erguido como um país colorido e mestiço, ficou à margem de uma série de políticas públicas. É uma população que não teve a mesma oportunidade de estudar, de se formar, de se capacitar e se especializar e adentrar no mercado de trabalho em condições iguais”, explicou.

 

Empregabilidade

 

Outra reflexão e debate aberto pela professora Heloísa Helena é, justamente, sobre a empregabilidade e as dificuldades para a inserção no mercado de trabalho dos negros e negras do País. E apesar de uma presença maior da classe trabalhadora negra em áreas como da Educação e das Engenharias, os setores que movimentam a economia, como da Informática e das Mídias em geral, ainda requer uma formação voltada para a população negra.

 

E as chances de alcançar cargos hierarquicamente superiores e financeiramente mais rentáveis em empresas, por exemplo, seguem proporcionalmente irrisórias ou nulas conforme a negritude da pele, destaca a mestre em Serviço Social.

 

“No Polo Industrial de Manaus, por exemplo, é comum ao percorrer uma linha de montagem, que é a base na escala social de uma empresa, não encontrar muitos funcionários negros. E conforme vai aumentando essa escala social, menos pessoas da tez preta você irá encontrar. Fica a pergunta: onde estão as condições iguais para que essa população tenha acesso, que se desenvolva e tenha uma empregabilidade equiparada a quem não é negro?”, questionou Helena.

 

Visibilidade x Invisibilidade

 

Para a assistente social, lutar pela visibilidade e direitos iguais para todas as populações requer também o desprovimento de um conceito racial que muitos dirigentes, governantes e gestores de instituições públicas e privadas têm ao desprezar a formação acadêmica, competência profissional e capacidade intelectual de uma pessoa negra devido a cor da pele.

 

“Então, esse Brasil da democracia racial, colorido e que encantou as pessoas por essa miscigenação precisa ser rediscutido sobre as questões de oportunidades e reconhecimentos. Porque há a necessidade de se reconhecer a competência de muitos profissionais que não têm acesso, não somente ao mercado de trabalho, mas a vários espaços da sociedade. E quando a pessoa chega ao mercado de trabalho, fica impedida de chegar ao ápice da sua competência devido a cor da sua tez”, reforçou Heloísa.

 

A professora de Serviço Social da Ufam também discute a visibilidade discriminatória que a população negra recebe quando associada à marginalidade. “Os negros são invisíveis para serem reconhecidos na sua inteligibilidade e competências e para terem acesso às políticas públicas. Mas são visíveis para os culpabilizar dos assaltos e dos assassinatos, para estarem nos presídios e prostituição e para serem os analfabetos e menos preparados do País. Visibilidade e invisibilidade para quem e por quê?”, disse.

 

Cotas

 

Sobre a política de cotas para o ingresso no Ensino Superior no Brasil de negros, indígenas e pessoas de baixa renda, Heloísa Helena afirma que as ações afirmativas são uma necessidade enquanto não existir equiparação. “Voltamos à questão estrutural do nosso país. No passado, o Brasil teve centenas de escravos que após ganharem liberdade com o fim da escravidão não foram contemplados, por exemplo, pelo sistema da lei de terras. Já o imigrante que chegou no País ganhou terras. Então, essas ações afirmativas servem também como uma compensação aos descentes dos africanos escravizados. É uma obrigação do Estado brasileiro”, disse.

 

As ações afirmativas, no entanto, geram polêmicas e discursos preconceituosos por uma parte da população do País, lembrou a assistente social. “Grupos considerados brancos reclamam que as pessoas estão sendo privilegiadas (pelo sistema de cotas). Isso não é privilégio, a pessoa está recebendo por algo que era devido (para corrigir injustiças históricas causadas pela escravidão). Na verdade, eu nem sei se isso tem pagamento essa compensação. Considero uma fatia muito pequena daquilo que o Estado brasileiro deve aos afrodescendentes”, comentou.

 

Saúde

 

Ainda conforme a professora de Serviço Social, as políticas públicas no Brasil para os/as negros/as devem se estender também à área da Saúde. “A população negra tem na sua biologia algumas fragilidades, como anemia falciforme, que requerem uma atenção especial. Nem sempre os pronto-atendimentos e alguns setores do SUS (Sistema Único de Saúde) estão organizados e preparados para atender essa população”, disse Heloísa Helena.

 

Outra deficiência apontada por Heloísa no sistema é a saúde mental. Um atendimento especializado necessário diante dos males psicológicos e emocionais provocados pelas condições de vida desiguais da maioria dos/as negro/as. “Devido à pressão que sofrem em decorrência da ausência de oportunidades e processos de racismo velado que a sociedade impõe na convivência mexe com a saúde mental dessas pessoas. Nem sempre ou nunca tem psicólogos e psicanalistas voltados para discutir esse problema com a população que solicita os serviços deles”, pontuou.

 

Esperanças

 

No Dia da Consciência Negra, a esperança de Heloísa Helena é que os processos democráticos se fortaleçam e que a América Latina progrida através de políticas públicas direcionadas para a diversidade racial. 

 

“Que a democracia possa responder aos anseios daqueles que trabalham e produzem riquezas para o seu país. Não podemos continuar com pessoas produzindo e trabalhando para o enriquecimento e engrandecimento de um país que os exclui do comando dessa sociedade. Queremos essa democracia, mais políticas públicas e oportunidades de concorrência. É isso, na verdade, que se espera de mais um dia 20 de novembro e de mais um processo de reflexão que deve ser feito não somente pelos negros ou grupos da sociedade civil negra, mas também pelos não-negros”, finalizou a professora e doutora de Serviço Social.

 

 

 

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